Era uma vez uma floresta de livros repleta de árvores de poesia, campos de fantasias e lagos profundos de aventuras borbulhantes. Por lá passava um viajante das matas que vivia de voar por entre as árvores, rolar no capim dos campos e mergulhar curioso na profundeza de todos os lagos, pois naquela floresta nada lhe trazia saudades de casa, já que o vento das palavras lhe carregava para todos os cantos que queria. Resolveu então construir um jardim onde pudessem viver bichos coloridos de todas as espécies e deu a este campo sem fronteiras o nome de JARDIM DOS ANIMAIS. Lá os bichos, mesmos os mais ferozes, conviviam em paz por entre as pastagens de versos e rimas, tinham a liberdade e a vida como berço, ostentavam orgulhosos suas cores e faziam ecoar por entre as folhas o seu canto de alegria. Satisfeito que estava com a sua criação, o viajante das matas levou a boa nova para todos os cantos. Entusiasmado, insistia para que todos percebessem a beleza daqueles bichos, pois muitos já nem se lembravam mais que eles existiam.
Um belo dia, apareceu na floresta de livros um viajante dos ventos, que se alimentava dos sons que os ventos faziam ao roçar nos galhos das árvores de poesia, ao vagar nos campos de fantasias e ao deslizar sobre as águas dos lagos borbulhantes. Não demorou para que, ao seguir uma das trilhas da floresta, o errante viajante estivesse cercado pelos bichos multicoloridos do JARDIM DOS ANIMAIS. Encantado, não conseguiu conter sua emoção diante de tanta beleza e resolveu fazer soar naquele Jardim todos os sons da natureza que, junto com as cores e o canto daqueles animais, fizeram sugir belas canções de exaltação à vida.
Daí, juntos, os viajantes puseram-se a cantar. E nas suas viagens, convidam os moradores de todos os campos e cidades a entoarem este canto de natureza que nos mostra o caminho da liberdade e do respeito à vida.
(Texto do encarte por Adeildo Vieira.)
Faixas
1
Os bichos Paulo Ró, Ronald Claver2:56
Os bichos que habitam minha cabeça
são de um ilógico jardim.
2
Hipopótamo (feat. Tina Nascimento & Naderdane Uloth) Paulo Ró, Ronald Claver1:54
O hipopótamo, sempre azul, passeia nos rios -
de invisíveis áfricas - redondas felicidades.
3
Zebra Paulo Ró, Ronald Claver2:12
A zebra antecipa Picasso e inventa o cubismo.
Desfila nas savanas imaginárias de blanche et noir.
4
Rinoceronte (feat. Diana Miranda) Paulo Ró, Ronald Claver2:14
O rinoceronte de bela feúra carrega na cara
a marca deste lugar: o espinho.
5
Urubu Paulo Ró, Ronald Claver2:11
O urubu sempre de luto
tem plumagem de rei e ares.
6
Pavão Paulo Ró, Ronald Claver1:34
O pavão é um leque japonês
bordado em arco-íris e caleidoscópio.
7
Girafa Paulo Ró, Ronald Claver2:36
A girafa, nas alturas, é alpinista sem montanha.
É um periscópio sob patas.
Vê o mundo de cabeça para baixo.
8
Gorila Paulo Ró, Ronald Claver1:48
O homem ri das macaquices do gorila.
O homem não olha no espelho.
Ri das semelhanças.
9
Camelo Paulo Ró, Ronald Claver1:30
O camelo, em seu isolamento
tem sede de deserto.
10
Lobo-guará Paulo Ró, Ronald Claver2:14
O lobo-guará uiva para a madrinha lua
com saudade das matas do Caraça.
11
Tatu (feat. Jorge Negão) Paulo Ró, Ronald Claver3:11
O tatu cava, cava, cava e neste cavar constante
cava a própria sorte, a própria morte, a própria cova.
12
Gavião (feat. Walter Galvão) Paulo Ró, Ronald Claver1:51
O gavião ensaia o vôo, desiste.
liberdade é um céu aberto depois da tela.
13
Crocodilo (feat. Tina Nascimento) Paulo Ró, Ronald Claver1:23
O crocodilo abre sua boca de horror
esperando que a borboleta amarela
pouse em suas presas para em seguida devorá-la.
Não há mais borboletas, cores ou flores neste jardim.
14
Serpente (feat. Cátia de França) Paulo Ró, Ronald Claver3:32
A luxuriante e malabarista serpente
serpenteia esguia e sinuosa diante dos olhos.
É um rio de métrica nervosa, redemoinhos,
meandros e contornos. Carretel de muitas linhas.
Se enrosca. Enrodilha. Arma o lance. Lança o bote.
Com o pecado original na pele, o paraíso se esvai.
Resta-lhe o arrastar no rastro do sol.
15
O Leão e a Leoa (feat. Dida Vieira) Paulo Ró, Ronald Claver3:26
O leão e a leoa, o tigre e a tigresa
estão irremediavelmente juntos, belos e cativos.
Debatem, nas jaulas, o amor, o enfado,
as misérias do ócio, do cio.
16
Tamanduá-bandeira Paulo Ró, Ronald Claver2:36
O tamanduá-bandeira abraça o vento
o vento tem cheiro de mato.
Campina. Vastidão. O vento tem cheiro da serra Canastra
17
Cavalo (feat. Paulinho Ditarso) Paulo Ró, Ronald Claver2:38
O cavalo cavalga o sonho, o vento.
Sob seus cascos,
planícies e planaltos são nuvens
de muitas léguas e liberdade.
18
Galo (feat. Naderdane Uloth & Voz Ativa) Paulo Ró, Ronald Claver1:42
O galo é flauta no quintal.
19
Boi (feat. Odair Salgueiro) Paulo Ró, Ronald Claver2:46
Enquanto carrega nos olhos toda a tristeza do mundo,
O boi rumina a tarde, o tédio, na certeza de ser pasto
na boca dos homens.
20
Onça Paulo Ró, Ronald Claver1:45
A onça está sempre pronta para a festa:
bela, corpo pintado, unhas afiadas, bigodes elétricos.
É uma pantera. Um gatão.
Ninguém veio buscá-la. Nem abriu-lhe a porta.
Impaciente, anda de lá para cá, de cá para lá,
eternamente.
21
Elefante (feat. Milton Dornellas, Tina Nascimento & Naderdane Uloth) Paulo Ró, Ronald Claver3:30
O elefante, apesar do tamanho e da graça,
é frágil.
De fragrância rara e tênue.
É o menino que deixou de crescer, ou melhor,
que deixou de brincar, que não pôde brincar.
22
Preservação (feat. Pedro Osmar) Paulo Ró, Ronald Claver2:30
Neste jardim onde se preserva a solidão,
a ema pára, a tartaruga corre, a arara cala,
o amanhã anoitece, a flor embrutece,
a noite não amanhece.
23
Onde estão Paulo Ró, Ronald Claver2:33
Em que céus voam, em que rios bebem,
em que florestas vivem: o tié-sangue,
o sanhaço-de-fogo, o guará, o tacha, a suçuarana,
o jacaré-açu, o jacaré-luneta, de papo amarelo,
a sucuri, a jibóia, o macaco-aranha, a cutia, a anta,
o caititu, a queixada, o jabuti-da-mata, o veado-catingueiro,
o jabuti-piranga, o inhambuaçu, o inhambu-xororó, o macuco,
o mutum-cavalo, onde estão, onde estão, onde estão ?
24
Convocação (feat. Odair Salgueiro & Ronald Claver) Paulo Ró, Ronald Claver3:33
Os bichos que habitam minha cabeça convocam
as savanas, as américas, as amazônias, os pantanais,
oceanias, europas, ásias, africas, rios
para reivindicarem uma carta de auforria.
Abro portas e portões e vejo:
Capivaras correndo em Mato Grosso, ariranhas
dançando nos pantanais, tucanos voando
no São Francisco e o homem - o mais sanguínario dos animais -
recolhendo suas balas de prata, suas redes de medo,
seus fuzis de espanto, suas armadilhas de incêndios.
E os depositando no museu do esquecimento.
25
A palavra esperança Paulo Ró, Ronald Claver3:43
E planto, e planto, e planto neste jardim:
gerânios, jasmins, ipês, margaridas, sempre-vivas,
magnólias, orquídeas e a palavra esperança.