Lançado em 2007, O Gargalhar da Invernada é o disco em que Milton Dornellas, músico carioca radicado em João Pessoa e um dos fundadores do Musiclube da Paraíba, mergulha no universo fantástico de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa.
Lançado em 2007, O Gargalhar da Invernada é o disco em que Milton Dornellas, músico carioca radicado em João Pessoa e um dos fundadores do Musiclube da Paraíba, mergulha no universo fantástico de Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa. O título vem da própria linguagem roseana, na qual “o gargalhar da invernada” nomeia o trovão. As 16 faixas do álbum, entre elas “Do Descarrilho”, “Escambo”, “Boca de Ouro” e a faixa-título, percorrem a fauna, a flora e a gente do sertão sob um olhar urbano e contemporâneo. Gravado no Estúdio Peixe Boi, o trabalho reuniu colaboradores como o violonista Marcelo Macêdo, o baixista Xisto Medeiros e a cantora Waleska Vidal, e ocupa lugar singular na discografia do compositor: um encontro entre a canção paraibana e uma das maiores obras da literatura brasileira.
Faixas
1
Do Descarrilho Milton Dornellas3:42
Quando viver é ela alegre e eu não
É como rota que cegou nó lá atrás
Sem bem sabido em que vida
Do descarrilho do bem querer
Eu sem o maneiro de junta seu
É tombo de pancada só
Anúncio distante de dor
Quando viver é ter que abrir mão
É como acordo feito com satanás
Sem bem sabido em que vida
Do descarrilho do bem querer
Eu sem o maneiro de junta seu
É tombo de pancada só
Anúncio distante de dor
2
Escambo Milton Dornellas, Mani Carneiro5:16
A ti linho
A mim lanhas
A ti carinho
A mim manhas
A ti sonho
A mim atentas
A ti componho
A mim fomentas
A ti construo
A mim enfeitas
A ti dôo
A mim aceitas
A ti vinho
A mim ramas
A ti alívio
A mim dramas
A ti cônscio
A mim ajeitas
A ti transponho
A mim tormentas
A ti flutuo
A mim desfeitas
A ti vôo
A mim afetas
3
Solistência Milton Dornellas1:00
Ando só, mas não só de solidão
Ando só da premissa solistência
Ando só exercitando paciência
Amansando potro xucro que dentro de mim mora
Se a tora for precisa em parte grossa, espessa
Há prova concreta de golpe duro, seguro, certeiro
Donde trinco, tombo, caio
Mas não me espatifo feito mealheiro
Meu Pullo é quem longe ainda me leva
Seus olhos me mostram o que mais vero e belo vejo
O verde
Sangue de folha que existe em mim como seiva
O vermelho
Sangue de arara que ferve nas minhas veias
O amarelo
Sangue de sol que me aquece da frieza dos desencontros
O azul
Sangue de céu que vem mantra como acalanto
4
O Gargalhar da Invernada Milton Dornellas7:11
O trovão estrondoso
Qual vociferagem do tinhoso
O gargalhar da invernada
Move folha, tange água
Espanta bicho que se esconde no grotão
É respostagem do fio de cor tremido
No céu preto encardido
Donde lua, estrela e sol se recolhem à solidão
Cachorro treme patas, rabo, fuça, até o dorso
Mulher cobre espelhos pra no fim não ter remorso
Da árvore saia de perto
Até vinda a estiagem não comporta amostragem
Agora, nesse momento
Há contento perto da lenha em queimação
Que era abrasa a moradia por dentro
Num xamego de virtude e agrado
Carece sossego e alento
5
Caroço de Morro Milton Dornellas, Ronaldo Monte4:34
Nas costa se lanha um aprendiz
Com o chicote do tempo que se tem nas mãos
Malvadeza, cinismo
Esse adorno condiz
Com acordos perversos, atos de perversão
Na cara se corta extensa cicatriz
Com a garra do tempo luzindo na luz
Lagarta de fogo raspando num triz
O olho de azougue, tocaia, arcabuz
Cravado por rabo de arraia
Movido a gandaia
Gadanho na carne
Dragado os estragos
Madraço corado
No olho atropina
Na Terra navega
quem quer ir
Pra todos os cantos
ou lugar nenhum
Travessa baixela, casco de siri
Em caroço de morro flora bananal
Qual caminho defina não dá pra fugir
Do raso, do vulgar, da mesmice, do não
Bofetada, beicinho, torção de nariz
Catinga de lixo, ganido de cão
Abraço abráquio
Urucuia ou no Estácio é fornalha sem chama
Sou cavalo cambraia
No rio ou na praia
Masco sal e grama
6
Chá das Cinco Milton Dornellas, Pedro Osmar3:13
Ela range os dentes
Ele estala a queixada
Ele empaca
Ela tranca
A vida esvai
E o tempo não estanca
De tão amargos juntos
Só rola um chá de boldo
Por sorte, viu seu moço
De efeito reparador
7
Religare Milton Dornellas, Paulo Ró3:33
No céu armado de cor azul fechado
Nada de tristonho, todo de marinho
No mais tardado, de pontos amarelos cravejado
Me orientando caminho
No que vejo trilha saio das brenhas
Debaixo daquele véu em casqueado de animal tratado
Fazendo faísca em pedra ligando Terra ao Céu
8
Pepita no Cascalho Milton Dornellas3:27
É do cascalho que a pepita me sorri
E do cascalho faço a vida melhorar
E do cascalho bem pisado faço areia
Da areia faço vidro, pra do vidro espelhar
Teu corpo em febre boa me querendo
Mas, se for uma minha chance em um milhão?
Ora, só tenho uma vida, uma morte
Uma então é muita sorte, que seja ouro de aluvião
É do cascalho que a pepita me sorri...
O teu sorriso bem branquinho me sorrindo
Teus olhinhos feito adaga a me furar
Teus cabelos cor de milho me trançando
Teu vestido balançando, teu colo pra eu deitar
É do cascalho que a pepita me sorri...
Oé, oé carro de boi em trilha estreita
Mourão fincado demarcando quarteirão
Vigília grossa causa mágoa e desespero
Mas em nós vira canteiro, brota flor no coração
É do cascalho que a pepita me sorri
Da minha casa ouço o mato sinto o rio
Do meu terreiro vejo os bichos, a plantação
Na minha rede tá tudo do meu garimpo
Meu amor que quero e sinto, meu tesouro meu quinhão
9
Boca de Ouro Milton Dornellas, Pedro Osmar1:11
Enquanto vago em meu alado
Subindo montanha, cortando colina
Meu cavalo com asas sobrevoa telhado
Buscando cansado espaço pra ninho
Enquanto você abraça a solidão
Como se fosse um amante em fantasia bizarra
Sinto ofegante algazarra
Acordado no sonho ouvindo sininho
No traquejar do quadril tremedor se vai longe
Arriscando o caminho de volta perder
A malvadeza do tempo veloz
Teima mostrar atroz em covardia
Avisando fim de festa
Entrando pela fresta
O sorriso de ouro da larga boca do dia
10
A Luz dos Olhos Dela Milton Dornellas, Paulo Freire2:11
Se meu amor está triste, chorando
Vou correndo saber o que aconteceu
Levo duas rosas amarelas
Pra brilhar os olhos dela
E dar luz pros olhos meus
Se ainda houver pranto
E com suas lágrimas um copo encher
Faço do meu peito um canteiro
Bobo e me rego com água dela
Pra colher rosa amarela
E não ver mais meu amor sofrer
11
Mão de Catador Milton Dornellas, Paulo Ró1:21
De beleza rara, singular
Tenho nas mãos uma flor
Melhor se no campo estivesse
Se no mundo não houvesse
Mãos de catador
Mas se assim fosse,
Como ofertar?
Ver tua alegria de felicidade
Se espalhando
Teu sorriso bonito
Teus cabelos tremulando
Tua mão macia me acarinhar
12
Pomar e Jardim Milton Dornellas3:48
Sem contar uma só alma penada
Corto muitos quarteirões
Arrastando o peso suportável de meus ossos
Contando sem tristeza idos, mortos
Saudando com sorriso meus amados retos, tortos
Respeitando sem medo meus rivais
Tolerando tempo ruim
Caprichando pro bom que está por vir
Colhendo doces frutas de estação
Enfeitando a roupa com flores de quintais
13
Meia Sola Milton Dornellas0:56
Vamos sair, gastar sapato
Nos pedregulhos cravados por todo lado
Dos nossos antepassados rever trajeto
Do povo nas ruas, nas casas, nas roupas, nos objetos
No romanciado das moças
Nos braços fortes nas roças
No cheiro doce das roscas
Nos peixes ariscos nas locas
Nos açoites feito nos troncos
Nas armas trovões, mil roncos
Nas tristezas em poças de prantos
Nas velhas a vida nos contos
Vamos rever o esquadrinhamento que foi dado
Como o hoje foi formatado
Pra que haja tanto penar
Vamos supor imperfeição do humano
Vamos creditar em maldade pensada
Temos légua pra ser trilhada
Em pés, lombo de animal ou motor potente de condução
São diferentes caminhos que levam pro nada.
14
Passar Milton Dornellas, Ronaldo Monte3:14
Passará toda marca que o tempo me deixar sulcar sobre a terra
Toda marca que o tempo sulcar no meu corpo também passará
Passará toda marca que tempo fizer do teu corpo em meu corpo
Passará o meu tempo e eu sei que o teu tempo também passará
Na lembrança do leito, arena, tem liça de cavalaria
Passará um tropel no meu peito e em teu peito também passará
Quando, enfim, o tempo decidir que será fim de tarde em meu corpo
Certamente teu corpo também como o meu não amanhecerá
Quando a noite baixar em meu corpo e fizer escuro em teu corpo
Certamente sobre novos corpos amanhecerá
15
Sinais Milton Dornellas, Paulo Ró3:19
Numa vida quanta vida se entrelaça
Sem pedir chega te abraça
Faz tecido de toda cor
Sem cuidado até linho se esgarça
O tempo carrega traça, sem licença, sem favor
Na ausência de saudade ou de desejo
Sempre vem algum lampejo pro caminho clarear
Não te atrevas a injusto julgamento
Da vida fazer tormento e a tristeza desatar
Se cruzou tua vida com meu viver
Não precisas padecer, nem tão pouco desamor
Teu perdão sei que dele não preciso
Vá buscar teu paraíso carregando outro andor
16
Ranger de Rede Milton Dornellas2:56
Ranger de rede
É o ranger dente do infinito tempo
Se querido que assim seja
É sossego de com o tempo adquirido
O arredondado da forma
De tanto esbarrão dos dias e das noites
Alisamento da aprendizagem
É quando se fala corrido, não soletra
Tabuada é pra contagem dos idos,
Dos puídos, dos feitos e das cores
Boa morte
É depois de vida de bom render
Não de render cobre
Vida de vida render
Saber não ter emprestado olhos alheios
E ter enchergado prá bem depois da corcunda do morrão.
Estreito vau de rio
Distância que maltrata
Selei vida em canoa
Nos olhos verde-mata
Rana doce riso
Destino bem traçado
Que levou pedaço meu
Teu em mim ficou guardado