Bandarra

Tibério Azul

Bandarra

2026 · Mídia Física · Vinil · CD

Bandarra ganha sua primeira edição em vinil em uma prensagem especial que celebra os 15 anos do lançamento do disco

Lançado em 2011, Bandarra – O caminho que vai dar no sol, de Tibério Azul, é um disco que se revela aos poucos, como quem convida o ouvinte a caminhar sem pressa por dentro de suas dez canções. Mais do que um simples debut solo, o trabalho abre uma fresta para a verve poética do compositor recifense, à época já conhecido por sua trajetória em projetos coletivos, como a banda Mula Manca & A Fabulosa Figura, e o projeto Seu Chico.

No Bandarra, o artista costura MPB, jazz, ecos de rock e traços regionais – que aparecem sobretudo na sonoridade do sotaque de Tibério – em um tecido majoritariamente leve, com arranjos orgânicos e um certo quê de rock rural, onde a poesia conduz cada movimento. O disco é inspirado pelas obras de Cora Coralina, Alberto Caeiro e principalmente Manoel de Barros: é no poeta mato-grossense que Tibério encontra a frase “Bandarra é cavalo velho solto no pasto, às moscas”, que funciona como o motivo conceitual do trabalho.

Bandarra, que, como a faixa Abóbora sugere, pode ser desde uma estrela dez vezes mais quente que o sol até o nome de um jogo do Playstation, na elaboração criativa do artista, nasce como um disco terroso, através de um personagem: um homem pragmático, que percebeu o tamanho do mundo e tem a liberdade de caminhar com os seus próprios pés. A partir dessa imagem, surgem as composições, as palavras que Tibério encaixa nas melodias.

Essa proposta estética parte de um princípio claro: deixar que a palavra conduza. Tibério estrutura suas canções sem depender de refrões ou fórmulas fixas, permitindo que cada faixa siga seu próprio fluxo. A musicalidade acompanha esse movimento, criando espaço para que os versos respirem e apontem direções. O resultado é um disco que exige escuta atenta pela forma como articula som e poesia, como se ambos caminhassem lado a lado, em equilíbrio.

A produção musical, assinada por China, Chiquinho e Homero Basílio, do Joinha Records, vai além do crédito formal: há um trabalho de construção coletiva que define a identidade do disco. Foram eles que ajudaram Tibério a montar o conjunto musical que o acompanha e a aprofundar os caminhos desejados pelo cantor. Mesmo sendo um projeto solo, Bandarra nasce de um gesto compartilhado, refletindo a necessidade do artista de criar suas obras a partir dos encontros.

É também desses importantes encontros que nasce a arte da capa, criada por Raul Luna. De caráter bucólico, a ilustração dialoga com a essência terrosa do trabalho mesmo que adicione a ela um verde campestre. Essa poética também se conecta ao contexto em que o disco foi lançado: um Brasil mais esperançoso, politicamente mais estável. Ainda assim, ao explorar nas canções temáticas que tem o ser e o sentir humanos como centro, Tibério entrega um trabalho perene, um reflexo de sua arte contemplativa mais interessada na metafísica do que em um período específico.

Com destaque para as faixas Veja Só – que ganhou um videoclipe em Boa Viagem, dirigido por Gabriel Mascaro, com ótima recepção do público e da crítica –, Alquimista Tupi – feita em parceria com o pianista Vitor Araújo – e Lá em casa – que sintetiza a atmosfera poética do disco, Tibério entrega um trabalho que caminha num fluxo desprendido, que vale ser revisitado agora. Quinze anos depois de seu lançamento, o álbum retorna em formato de vinil, atestando o seu caráter atemporal, como um homem pragmático, que segue caminhando em busca do sol.

(Texto do encarte por Suzana Mateus.)